As operadoras vão inundar o mercado com o próprio eSIM de viagem — e por que isso provavelmente não basta
As operadoras móveis preparam uma onda de eSIMs de viagem próprios, pré e pós-pagos, numa tentativa direta de impedir que apps de terceiros fiquem com uma fatia ainda maior do mercado de conectividade internacional. Depois de anos vendo startups de eSIM comerem o roaming, as operadoras chegaram a uma conclusão desconfortável: o lugar mais seguro para perder um cliente é perdê-lo para si mesma.
A escala da ameaça explica a pressa. A receita de pacotes de eSIM de viagem caminha para cerca de US$ 1,8 bilhão — alta de 85% em um ano — e os usuários de eSIM de viagem já passaram de 134 milhões no mundo. A GSMA Intelligence aponta que 73% das operadoras móveis já lançaram eSIM comercial para smartphones, embora muitas ainda façam pouquíssimo para divulgar ou ativar o serviço.
O que está por trás
Duas coisas mudaram ao mesmo tempo.
A conectividade como serviço derrubou a barreira de entrada. Plataformas que revendem acesso atacadista à rede permitem lançar uma marca de eSIM de viagem sem ter espectro, torres ou acordos de roaming. Foi assim que a categoria saiu de um punhado de players para dezenas em três anos, e por isso a guerra de preços é tão dura.
Os celulares somente eSIM eliminaram o atrito que protegia as operadoras. Quando era preciso caçar um clipe e um chip físico, o padrão era deixar o roaming ligado. Num aparelho somente eSIM, adicionar um segundo perfil é uma compra de dois minutos no portão de embarque. O custo de troca que defendia silenciosamente a receita de roaming basicamente sumiu.
As operadoras reagem por dois caminhos. Algumas lançam eSIMs de viagem de marca própria para capturar o cliente que perderiam de qualquer jeito. Outras simplesmente baratearam o roaming. Na Coreia do Sul — primeiro mercado onde o eSIM comprado localmente superou o roaming, 36% contra 34% — a KT ampliou a franquia dos planos de roaming compartilhado a partir de 1º de setembro: o plano de 33.000 wons passou de 4 GB para 5 GB, o de 44.000 wons de 8 GB para 10 GB e o de 66.000 wons de 12 GB para 20 GB.
Por que a defesa é difícil
Uma operadora que lança eSIM de viagem tem um problema estrutural: compete contra a própria margem de roaming. Se colocar um preço agressivo o bastante para bater Airalo ou HOLASIM, canibaliza um produto de margem maior que já vende para a mesma pessoa. Se proteger a margem, perde no único critério que o viajante realmente compara.
A tensão aparece nos números. Os passes diários de roaming nos Estados Unidos seguem entre US$ 10 e US$ 12 por dia — de US$ 140 a US$ 168 em duas semanas. Os apps de eSIM cobrem as mesmas duas semanas por bem menos de US$ 30 na maioria das regiões, com pacotes de entrada abaixo de US$ 5 por 1 GB. Estimativas independentes colocam a economia da troca entre 70% e 90%.
Nenhum eSIM de viagem com marca de operadora chegou ainda a um preço que feche essa diferença, porque fechá-la seria admitir que o preço do roaming nunca teve a ver com custo.
O que isso significa na sua próxima viagem
A boa notícia é que a concorrência está funcionando. Mais vendedores significa mais pressão de baixa, e os planos de operadora que chegam em 2026 são claramente melhores que os produtos de roaming que substituem — o aumento de franquia na Coreia é um ganho real, ainda que modesto, para quem nunca pensou em trocar.
A orientação prática não mudou:
- Compare sempre preço por GB e validade. Um eSIM de viagem de operadora a US$ 25 por 3 GB em 7 dias não compete com um plano de US$ 19 por 10 GB em 30 dias, seja qual for o logo. Nosso comparativo por GB é o jeito mais rápido de checar qualquer oferta nova.
- Não confunda eSIM de viagem de operadora com passe diário. São produtos diferentes com economias muito diferentes, e as operadoras vendem os dois.
- Veja em qual rede seu eSIM realmente roda. Um eSIM de provedor especializado costuma usar as mesmas redes locais do plano de roaming: você paga pela mesma antena com outra margem.
- Mantenha seu número de casa ativo no segundo perfil. Aparelhos com eSIM duplo permitem deixar SMS e chamadas na linha de origem enquanto os dados rodam no plano de viagem. Só esse ajuste elimina a maior parte do motivo pelo qual as pessoas ficam no roaming.
Provedores especializados como HOLASIM, Airalo, Saily e Nomad seguem ganhando em preço por GB na maioria das regiões porque dados são o único produto deles. As operadoras entram numa corrida em que o adversário não tem nada a proteger.
A leitura de fundo
Fique atento a um padrão conhecido no próximo ano: as operadoras vão embutir dados de viagem em planos pós-pagos existentes em vez de competir de frente por preço. O bundling é a única defesa que não obriga a admitir a diferença em voz alta, e funciona: dado incluído fideliza mesmo quando não é barato — a mesma dinâmica que já se vê em companhias aéreas, cartões de crédito e apps de banco.
Para quem viaja, a conclusão é pouco glamourosa mas confiável: o logo não determina o valor; o preço por GB e a janela de validade determinam. Confira os dois antes de instalar qualquer coisa, seja quem for o vendedor.