A Europa esta reescrevendo todo o seu marco de telecomunicacoes em 2026 e as operadoras acabaram de dizer a Bruxelas que nao basta
Os CEOs das teles publicaram uma carta aberta em 15 de setembro contra a Lei Europeia de Redes Digitais. O que o novo regulamento unico muda de verdade para roaming, eSIM e para quem viaja.
Em 15 de setembro de 2026, os presidentes das maiores operadoras de telecomunicacoes da Europa publicaram uma carta aberta pedindo uma "correcao de rumo" aos formuladores de politicas da UE. A carta, emitida pelo grupo de lobby Connect Europe - que tem entre seus membros Deutsche Telekom, Telefonica e Orange - responde diretamente a proposta da Comissao Europeia de uma Lei de Redes Digitais (DNA, na sigla em ingles), que segundo os executivos "nao enfrenta a necessidade da Europa de melhorar materialmente as condicoes de investimento e inovacao em conectividade".
A maioria dos viajantes nunca ouviu falar da DNA. Deveria, porque e a reescrita mais importante da lei europeia de conectividade desde os tetos de roaming, e vai definir quanto custa uma conexao de dados no continente na proxima decada.
O que e exatamente a Lei de Redes Digitais
A Comissao adotou a proposta da DNA em 21 de janeiro de 2026. Ela faz algo que a regulacao europeia de telecomunicacoes nunca fez: funde quatro atos legais separados em um unico Regulamento de aplicacao direta.
Os quatro que entram na fusao:
- O Codigo Europeu das Comunicacoes Eletronicas (EECC), adotado em 2018
- O Regulamento BEREC
- O Programa de Politica do Espectro de Radiofrequencias
- As partes centrais do Regulamento da Internet Aberta
O raciocinio vem direto dos relatorios Draghi e Letta, que concluiram que o setor europeu de comunicacoes eletronicas segue fragmentado em 27 mercados nacionais, deixando as operadoras com barreiras para operar e escalar entre fronteiras.
As medidas principais:
- Uma autorizacao de "passaporte unico" - a operadora notifica um unico Estado-membro e pode operar em toda a Uniao
- Uma autorizacao de espectro satelital em nivel da UE
- Politica de espectro harmonizada, com licencas mais longas e compartilhamento de espectro generalizado
- Um Plano de Preparacao em nivel da UE para desastres naturais e interferencia estrangeira em redes e sinais de radio
- Planos nacionais de transicao obrigatorios para o desligamento do cobre em favor da fibra completa
O que as operadoras contestam
A carta da Connect Europe pede mais incentivos ao investimento, menos regulacao e menos burocracia. A queixa mais concreta e o desligamento do cobre.
"A transicao para a fibra", escreveram os CEOs, "deveria ser impulsionada por melhores condicoes de implantacao, pela escolha do consumidor e pela demanda de mercado em evolucao - nao por comando regulatorio."
Nas entrelinhas: as operadoras querem consolidacao e liberdade de preco; a Comissao quer um mercado unico que funcione para o consumidor. Os dois lados invocam investimento. E a mesma tensao que produziu as regras de roaming que o viajante hoje considera obvias - e vale lembrar que a industria tambem fez lobby pesado contra elas.
O que muda para quem viaja
Nada da noite para o dia. A DNA e uma proposta em tramitacao legislativa, e a carta de setembro e um movimento de lobby no meio desse processo, nao uma decisao. Mas ha tres fios que importam se voce viaja pela Europa:
1. As regras de roaming nao estao sendo reabertas, mas o marco em volta delas sim. O regime Roam Like at Home ja foi estendido ate 2032 e Ucrania e Moldavia estao dentro, como cobrimos em nossa materia sobre a area de roaming da UE. A DNA nao desfaz isso. O que ela faz e reescrever a maquinaria regulatoria que define condicoes de atacado, acesso a espectro e protecoes ao consumidor por baixo.
2. O acesso a emergencias em roaming recebe atencao explicita. A DNA da peso real ao acesso confiavel a servicos de emergencia durante interrupcoes de rede, inclusive para usuarios em roaming, alem de comunicacoes de emergencia transfronteiricas mais solidas. Para quem viaja, essa e a diferenca entre uma queda de rede ser um incomodo ou ser perigosa.
3. A autorizacao de espectro satelital em nivel da UE e, discretamente, algo grande. Um caminho unico de autorizacao europeia para espectro de satelite, mais um mecanismo comum de selecao de comunicacoes satelitais pan-europeias com criterios de seguranca e resiliencia, e a base regulatoria dos servicos direto ao dispositivo que estao sendo financiados agora.
A lacuna que a DNA nao fecha
Eis o que nenhuma versao desse Regulamento resolve: no momento em que voce sai da UE, volta ao mercado de roaming de 2010.
O Roam Like at Home cobre a UE/EEE. Desembarque na Tailandia, no Japao, no Brasil, na Turquia ou nos Estados Unidos e o seu SIM europeu volta ao que a operadora decidir cobrar, normalmente ordens de grandeza acima das tarifas locais. Essa e exatamente a lacuna em que os eSIMs de viagem cresceram, e explica por que a adocao de eSIM entre viajantes europeus praticamente dobra assim que eles saem da Uniao.
A DNA trata de como as redes sao construidas e reguladas dentro da Europa. Ela nao diz nada sobre o que um viajante espanhol paga por dados em Bali.
O que fazer enquanto isso
Se a sua viagem fica dentro da UE, o seu plano de casa esta bem - e para isso que existe o Roam Like at Home. Se ela sai da UE, a lista pratica nao mudou:
- Compre e instale o eSIM de viagem antes de embarcar, pelo Wi-Fi, para pousar ja conectado.
- Mantenha a sua linha local ativa para SMS (codigos de banco, mudancas de voo) e mande os dados pelo plano de viagem.
- Verifique se o destino restringe eSIMs de viagem antes de depender de um: alguns paises restringem.
- Compre dias primeiro, gigabytes depois. A maioria faz o contrario.
Provedores como a HOLASIM vendem eSIMs internacionais pre-pagos pensados exatamente para esse cenario: a viagem que comeca na Europa e termina onde o Roam Like at Home nunca chegou.
As operadoras e a Comissao vao passar o proximo ano discutindo a DNA. Quem viaja nao precisa esperar o desfecho para parar de pagar a mais.